Um pouco de água e um pedaço de pão

boy-and-his-basset-hound

Me lembro de ainda garoto de ter conhecido um cão mestiço, sua mistura era algo anormal.
Baixo, largo, olhos bem claros, orelhas grandes arrastando no chão, lembrando as de um basset hound, sua cor, um vinho escuro.

Ele havia nos visitado a primeira vez através de um cliente que meu pai tinha. Aquele foi levar um motor de picadeira de capim para gado para consertar e o cão o havia seguido. Não lembro seu nome, apenas o tenho na memória, pois eu devia ter meus sete ou oito anos.

Ele era um cão já de meia idade e estava cansado, pois foi seguindo seu dono correndo atrás do carro até chegar na oficina de meu pai que era nos fundos do quintal de minha casa. Ao chegar eu o vi todo cansado, língua para fora, não sabia se respirava, se babava ou engolia a saliva, rs.

Enquanto meu pai conversava com o cliente, fui até a cozinha peguei um pote de margarina de 500g vazio, coloquei água e ofereci. Ele bebeu quase toda a água. Tornei a encher e colocar perto dele que bebeu mais um pouco e foi acalmando sua respiração.

Voltei até a cozinha e sem que minha mãe visse peguei um pão duro, muito duro, pão este que minha mãe iria usar para fazer um doce. Chamei-o num canto para que meu pai não visse, muito menos minha mãe e fui oferecendo ao pobre cão cansado. Enquanto ele comia eu acariciava sua cabeça e conversava com ele. Não me lembro do que falávamos…

cao comendo pao

Quando terminei de dar o pão seu dono já estava pronto para partir e entrando no carro, ele se levantou e se colocou a correr atrás até a sua casa.

No outro dia, chegando da escola – naquela epoca vinhamos sozinhos sem que pai e mãe precisasse buscar -, lá estava ele na porta da minha casa. Ele me recebeu com festa, mas estava cansando. C

Cloquei minha pasta dentro de casa e voltei com o pote de água e um pedaço de pão velho que ofereci a ele. Seu bafo cheirava carniça, o que mostrava que ele era um cão acostumado a se virar. Enquanto o acariciava, vi cicatrizes de brigas em seu corpo, talvez por alguma cadelinha no cio ou um pedaço de carniça, quem sabe?

Quando já havia descansado e era hora de ir, ele simplesmente saia, mas olhava para trás uma duas ou três vezes e imprimia um ritimo de caminhada até dobrar a esquina e desaparecer.

Por vários dias ele me visitou seguidamente no mesmo horário, creio que umas 10 a 15 vezes e todas elas eu e ele repetiámos o ritual da água e do pão.

Eu vinha correndo da escola já sabendo que ele estaria ali na entrada de casa me esperando. Até que um dia isso não aconteceu… Ele parou de me visitar.

Tenho certeza que algo muito ruim aconteceu, pois não existe maior fidelidade do que a de um cão, mesmo que essa fidelidade seja recompensada por um pouco de água e um pedaço de pão.

Fórmula do amor

cao oxi

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, os donos de cães não são de pessoas tristes, sozinhas e avarentas.

Essa caricatura não faz condiz com a realidade apesar das pessoas vestirem seus cães de maneira ridícula, conversarem com eles durante horas, deixarem enormes heranças em dinheiro em seu nome já que não tiveram grandes amigos humanos.

O perfil de donos de cães são de pessoas divertidas, menos solitárias e de maior auto-estima do que quem não os tem e existe uma explicação bem simples para isso.

Sabe a oxitocina? Não, não é a vizinha do 32, nem a velhinha da novela, menos ainda uma nova droga, rs! Ela é o hormônio do bem-estar também conhecido como hormônio do abraço, pois nos dá aquela sensação gostosa de um abraço bem apertado e cheio de amor!

Um estudo no japão mostrou que pessoas que interagem positivamente com seus cães registraram um aumento na produção de oxitocina. Mas não somos só nós que registramos esse aumento. Nossos amigos caninos também tem esse aumento. E mais, no caso dos cães, esse aumento só é registrado na presença de nós humanos, ou seja, os cães preferem muito mais a nossa presença do que os da sua própria espécie.

Basta o pequeno ato de tocar a cabeça de um cão já é suficiente para provocar o aumento da produção da oxitocina.

E você? Já tomou sua dose de oxitocina hoje?

Nasus, o incompreendido

nasus

Nasus é um border collie como qualquer outro. Inteligente, pastoreador e bagunceiro. Até ai tudo bem, mas o que ninguém entendia era porque Nasus estava odiando crianças.

Um cão pode se dar bem com tudo que lhe é apresentado de maneira amigável e tranquila. Infelizmente, Nasus não tinha em mente o conceito criança como algo bom.

Todas que passam em frente a sua casa o insultavam. Ele não conhecia nenhuma criança fora de sua família que não fosse pentelha. Resolvi levar Nasus até a porta da escola ao final da aula e corrigi-lo toda vez que quisesse avançar.

Depois de algumas aulas era hora de Nasus ter contato com uma criança, e quem levei? Meu filho Fellipe, claro! Acostumado com pit bulls e rottweilers, Fellipe não mostraria medo e passaria confiança e respeito.

Não poderia ter sido melhor! Nasus aprendeu que existem crianças de bem. Nascia ali uma grande amizade.

Começo, Meio, Fim… Recomeço

shutterstock_147096581

Tudo tem um começo, um meio e um fim e, depois do fim, a única coisa que nos resta é recomeçar e os cães nos ensinam isso em um curto período de tempo. Tenho pena de quem não consegue vivenciar isso.

Em mais de 20 anos de profissão nunca vou me acostumar com a noticia de que um aluno meu se foi.
Toda vez que encontro um antigo cliente e pergunto pelo seu cão e ele me diz que este se foi, sinto um grande vazio. Fico o dia todo relembrando momentos que vivi com aquele cão. Muitas vezes posso esquecer do dono, mas nunca me esqueço do cão.

Ainda bem que sinto a perda destes amigos de 4 patas que fiz, pois o dia em que eu agir diferente perante uma notícia dessas, meu trabalho se tornará mecânico, sem vida, não humano.

Lidar com cães de clientes os tornam meus também. Vibro com seus aprendizados e me frusto também, quando o dono não consegue o que queria. Acho que cães deveriam ser eternos e que fossem como pássaros livres que vivem muitos anos após a nossa morte para poderem assim alegrar a vida de outras pessoas.

mosaico

Neste Domingo estava em Batatais prestigiando a festa de San Genaro e fui abordado por uma senhora a qual não lembrava mais, mas ao me dizer que era a dona de um fila que eu havia treinado naquela cidade, lembrei na hora. Ela abriu um sorriso e me disse que o cão era outro e que eu tinha feito um milagre para ela, o comportamento dele mudara muito. Fiquei muito feliz com a noticia e lembrando daquele fila tigrado coloquei um sorisso no rosto e disse a ela que o cão dela era daquele jeito, estava tudo ali, bastava exercitar e que o comportamento errado dele era por culpa dela. Eu não havia feito um milagre, mas sim ela, eu apenas mostrei como.

Ao chegar em Franca fui chamado no celular era meu amigo Gustavo Gasparoto dono do Zeus o labrador que acompanhou minha Kaoma em varias apresentações. Pela voz embargada e soluço de choro incontrolável conclui que Zeus havia ou estava indo embora. Nesta hora sempre me mantenho firme, mas minha vontade é de desabar. Gustavo não precisava de nada além da minha presença naquele momento, pois não sabia como agir, o que fazer, etc.

Mal sabe ele que eu também não, apenas me mantenho forte e sigo todo procedimento que aprendi ao longo de minha vida profissional. As últimas horas de um cão, para quem nunca passou por isso, são desesperadoras, pois sempre os vemos correndo alegres sem reclamar de nada e, mesmo doentes, abanam o rabo e fazem festa.

Você fica de mãos atadas, tentando pensar no que fazer, mas sabe que não há nada, nada que você possa mudar aquele momento, e você vê o final se aproximando aos poucos, você conversa com seu amigo como se estivesse dando aval para que este vá, mas o mesmo tempo seu coração se nega a aceitar e sua mente entra em conflito, um misto de dor, frustração, indagação do porque seu cão esta sofrendo daquele jeito.

Muitos lendo este post agora, estão lembrando de seus cães e outros bichinhos que se foram ou que estão em situação semelhante. Isso acontece com todos que amam seus amigos peludos, pelados, de penas, bípedes ou quadrupedes e às vezes trípodes.

mosaico2

Agradeço ao meu amigo Gustavo por ter me chamado para estar presente nos últimos momentos de Zeus. Sou feliz de ter participado desde a escolha a 14 anos atrás, ter feito parte da educação e de poder me despedir desse grande amigo, acompanhar todo ciclo de um cão é doloroso, mas mesmo nestes momento eles nos ensinam até mesmo o que é morrer. A todos os meus clientes e amigos espero que esta confiança em me confiar a educação e a amizade de seus cães nunca se acabe. Quero continuar sorrindo e chorando, de alegria é claro, por tudo e por todos que passarem em minha vida! Que Deus me ajude a nunca perder este sentimento.

O Ritual

ritual4

Todos os dias de manhã meu filho  faz este ritual:

Levanta, toma seu leite com achocolatado, Andora o recebe na porta da cozinha e juntos caminham para debaixo de uma mesa de alvenaria que tenho, se acomodam e curtem uma preguiça matinal juntos.

ritual2

Ele olha para ela com ternura e ela corresponde com a mesma ternura que um cão pode ter. De todos os cães que tenho Andora é sua preferida. Ela adora receber seu carinho, seu afago, cochila no seu colo, uma amizade fiel e tenho certeza que Andora morreria por ele.

ritual3

Às vezes vejo que esta conversando com ela, bem baixinho, nunca ouvi o que diz e não pergunto, pois isso é assunto entre os dois, talvez possa ser uma confidência, possa ser um pedido ou apenas palavras de carinho. Mas pelo rosto dos dois sei que é algo bom. Como uma pessoa que lida com animais, fico orgulhoso de presenciar essa sena todos os dias na minha casa.

ritual2

Incentive seu filho a amar e respeitar os animais, crianças que aprendem o valor da vida são mais felizes. Repreenda qualquer tipo de brincadeira agressiva de ambas as partes, eduque, incentive comportamentos bons é assim que deve ser para qualquer ser vivo.

Amar é uma linguagem universal e qualquer raça mesmo que bem diferente da sua conhece essa comunicação.

 

Força, amigo Zeus

dino3

Minha vida é movida por cães, leio cães, escrevo cães, estudo cães, trabalho cães não posso dizer que almoço e janto cães porque não é verdade, mas quando estou comendo eles também estão.

A maioria de meus alunos eu vi crescer, alguns me deixam depois de algum tempo, mas ficam guardados na minha memória para sempre, esqueço o nome e o dono, mas não esqueço do meu aluno.

Zeus é um aluno diferente está comigo desde que eu e seu dono Gustavo Gasparoto fomos buscá-lo numa casa próximo a rodoviária. O pai de Zeus se chama Moisés um enorme labrador caramelo, cabeçudo lindo. Zeus nasceu negro como a noite, mas com um brilho de luar no peito em forma de uma manchinha branca, escolhido por Gustavo justamente por esse detalhe.

Treinei Zeus como se fosse meu e logo Zeus se tornou parceiro de Kaoma minha rottweiler terapeuta. Zeus também levou muita alegria a crianças e idosos em apresentações. Passou a fazer parte de minha equipe de terapeutas mais bem treinados.

Aposentado desde os 7 anos, eu e Zeus passamos muitos mas muitos bons momentos juntos e dos maus momentos também. Certa vez estávamos parados na avenida Ismael Alonso y Alonso em cima da calçada esperando para atravessar quando fomos atropelados por um carro que ao tentar estacionar, acertou o para-choque na cabeça de Zeus fazendo-o convulsionar bem na minha frente.

Mas, para minha sorte e a de Zeus, estávamos a poucos metros de uma clinica veterinária e eu, no desespero com ele nos braços, entrei corrento pedindo socorro e com toda rapidez conseguimos salvar Zeus que ficou internado por 2 dias e foi liberado em seguida para viver sua vida normalmente.

Zeus é bem amado por seus donos que não medem esforços para tratá-lo praticamente como um membro da família. Num outro susto, Zeus retirou um tumor próximo ao ânus que graças a Deus não voltou.

Como eu disse, sempre acompanhei e acompanho a vida de Zeus. Cuidei das cruzas dele, arrumando namoradas, verificando alimentação e levando ele nas minhas sessões de cão terapia. Hoje, aos 14 anos, com catarata, surdo com dificuldade de movimentar e com uma insuficiência cardíaca, vê-lo na velhice me dá um pouco de nostalgia, tristeza, pois ele é minha ponte com a cadela que mais amei Kaoma e, por consequência, o quero muito bem, muito mesmo.

Relembrar nossas atividades juntas onde Zeus e Kaoma eram verdadeiros parceiros de apresentações. APAES, Azilos, Creches, Mac dia feliz, expocães, gincanas, desfiles de 7 de setembro, fomos em tudo que éramos convidados. Mas a vida não para para ninguém nem mesmo para esses anjos e para eles costuma ser mais cruel, pois o tempo passa muito rápido.

Esta semana Zeus foi diagnosticado com um tumor na traqueia, gravíssimo. Minha amiga Dra. Flavia Novelino fez a cirurgia para retirada deste tumor que estava dificultando meu amigo a comer beber e respirar. Hoje fui buscá-lo e, ao pegá-lo na clinica, Zeus me recebeu como se nada estivesse acontecendo, abanando o rabo, tossindo, com dificuldade de andar foi até o carro parou na porta e me olhou como se pedisse ajuda para subir, suas pernas que antes faziam truques de saltar andar apenas em duas patas mal conseguiam sustentar seu corpo cansado.

Segurei seu corpo e o ajudei a subir, me veio a imagem de Kaoma passando por tudo aquilo novamente e num relance meu coração angustiou, os olhos merejaram então chorei. Segui destino a sua casa, a vontade era levá-lo para minha, onde eu pudesse acompanhá-lo, ajudá-lo, retribuir tudo que me proporcionou.

Mas seus donos são muito leais a ele e Zeus agora está em casa, recebendo os cuidados corretamente e minha mente está lá com ele. Força Zeus, estou com você nas orações assim como todos que amam cães e sabem o que você está passando, estão todos orando por você!

Vivência

cão vivencia

Vivenciei uma época em que ninguém dava bola pra raça.
Vivenciei uma época em que se dava angu cozido com carne para o cão da casa.
Vivenciei uma época em que o chamado rabo do tatu ficava pendurando próximo a porta da sala e este servia para bater nos cães da casa que tentavam entrar.
Vivenciei uma época em que se esfregava o focinho do cão na urina para ele aprender que ali não era o lugar certo
Vivenciei uma época em que a unica vacina do cão era a de raiva.
Vivenciei uma época em que se dava banho de mangueira com sabão de cinzas no cão e o deixava secar no sol.
Vivenciei uma época em que quebrava ovo quente na boca do cão que roubava o galinheiro.
Vivenciei uma época em que todo mundo chamava o cão da casa de “tio”
Vivenciei uma época em que se prendia o cão durante o dia e soltava anoite para ficar bravo.
Vivenciei uma uma época em quase ninguém sabia o que era crueldade.
Vivenciei uma em que se enterrava o cão no fundo do quintal.
Vivenciei uma época em que se matava pra se ter um controle populacional de cães.
Vivenciei uma época em que as coisas começaram a mudar.
Vivencio uma época em que muitas pessoas estão mudando graças a estes seres especiais.