Você entende, você consegue, você está vivo!

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Domingo, um sol lindo lá fora, um dia daqueles em que você acorda e fica indescritivelmente feliz por estar vivo e tudo estar correndo bem na sua vida.

Era dia de cão terapia. Sempre que é marcada a visita aos vovôs e vovós, eles ficam alegres e esperam ansiosos a chegada desse dia especial. Já fazia tempo que eu frequentava aquele lar de idosos e todos eram colocados na área externa para nos receber. Lá havia um senhor com Alzheimer, Parkinson e paralisia já em estado muito avançado. Ele não se comunicava, não respondia à perguntas e mal abria os olhos. Com os braços tortos as mãos atrofiadas, seu corpo era rígido e a única coisa que se movimentava era sua língua, que parecia coçar a gengiva, às vezes rapidamente, às vezes devagar. A pele fina e enrugada das mãos e do rosto me davam a ideia de que ele tinha de 70 a 80 anos. Sua rotina se limitava a tomar o sol da manhã e fazer algumas sessões de fisioterapia durante a semana e sua movimentação se resumia a ir da cama para cadeira de rodas. Era assim que esse idoso ia vivendo o resto de sua vida.

Como disse, eu já havia feito algumas sessões naquele lar e os idosos conheciam a Andora, minha golden retriever. Todos jogavam a bolinha para ela, o que é uma ótima maneira de se exercitar. A Andora corria, buscava a bola e a entregava para algum vovô ou vovó jogar. Ela nunca deixou de dar atenção para nenhum idoso e por várias vezes parou em frente àquele senhor e ofereceu a bolinha para que ele jogasse – ficava parada com a bola na boca e o rabo balançando. Eu notava que Andora olhava bem nos olhos dele, esperando que ele pegasse a bolinha e jogasse, mas o que ouvíamos era “Ah Andora, ele não brinca!” ; “Ele tá dodói” ; “Ele não entende” ; “Ele não consegue!” ; “Ele não mexe os braços sozinho!”

Eu pegava a bola e a entregava para que o próximo a jogasse, e assim a sessão transcorria. Quando acabávamos, todos se despediam da Andora e eu a levava até aquele senhor e tentava, em vão, esticar suas mão para que ele a acariciasse. Seus braços rígidos davam a impressão que iriam se quebrar e logo já passávamos para a próxima pessoa.

Um dia Andora parou novamente na frente daquele senhor e logo vieram as desculpas, mas dessa vez algo me disse “Coloque a bola na mão dele!” Tirei a bolinha da boca de Andora, abri os dedos rígidos daquele senhor e a coloquei em sua mão. Abaixei-me e falei calmamente em seu ouvido: “Joga! Jogue a bola para ela!”

Ele estava ali, sentado na cadeira de rodas, com os olhos semi abertos que nunca desconfiei que estivessem realmente enxergando. Depois de alguns segundos, sua mão esquerda que segurava a bolinha foi se descolando de seu corpo e, quando vimos, ela já estava erguida acima de sua cabeça, mesmo com a dificuldade motora. Andora disparou a latir como se dissesse “Joga logo!! Vamos!!” e então, como num milagre, a bola foi lançada no ar e a euforia tomou conta do lugar. Quando olhei para trás vi enfermeiras, cuidadoras e cozinheiras correndo para chamar os outros, exclamando animadamente “Ele se mexeu sozinho!” ; “Ele conseguiu!” ; “Há quanto tempo não o vejo se mexer sozinho!”

Andora trouxe a bola e eu a coloquei novamente na mão do idoso, que a jogou mais uma vez. Aquele dia fiquei com o coração acelerado de emoção e ao mesmo tempo angustiado por não ter acreditado em Andora há mais tempo, pois desde o inicio ela sabia que aquele senhor estava querendo jogar a bolinha. Algum tempo depois, fiquei sabendo em outra visita que o senhor da cadeira de rodas infelizmente havia falecido.

Sempre que me lembro dessa historia me condeno por não ter acreditado no meu cão e ter me deixado deixar levar pelos humanos ali presentes. Por isso, sempre que seu cão parar de frente pra você e te olhar nos olhos, saiba que ele está te dizendo sem nenhuma palavra que você entende, você consegue, VOCÊ ESTÁ VIVO!!!

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2 pensamentos sobre “Você entende, você consegue, você está vivo!

  1. Bom dia !

    Meu nome é Roseli, moro na Vila Maria-SP, estou nesse apto faz dois meses, e sempre ouvia um latido triste mas não sabia de onde vinha, ai descobri que trata-se do Maylon, um cachorro que o dono se casou e não pode levá-lo, ai ele deixa ele preso num porão as vezes mais de 48 hrs ou quando vem prende ele numa corrente direto, ele as vezes esquece de por água ou ração. ajudo como posso, falei com ele e quer doar e me disse que mantém assim por exigência dos vizinhos no quintal enquanto isso o cachorrinho sofre pra caramba, procuro desesperadamente por ajuda e como vi seu trabalho quem sabe..
    Ele tem porte médio e cerca de 9 anos, fisicamente esta bem mas muito assustado e arisco.
    Por favor nos ajude 11 38079138 após as 14 hrs durante a semana e fim de semana hr normal.
    roselimontero@hotmail.com

    grata

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